quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Rio de Onor




No início de Junho,  antes da chegada do tórrido Estio,  fizemos um percurso de btt no Parque Natural de Montesinho.
Ficámos numa casa típica, a Casa de Onor, na aldeia de Rio de Onor,  mesmo ao lado do rio homónimo. Apesar de termos chegado tarde fomos muito bem recebidos pela D. Rita, que improvisou um jantar delicioso com produtos tradicionais: presunto, queijo, vinho, pão, omelete e salada de tomate.


De seguida fomos para o quarto planear a viagem do dia seguinte. A tarefa mais trabalhosa foi desenhar na carta topográfica o percurso descrito no guia que temos vindo a utilizar,  Descobrir Portugal, Itinerários Naturais, de Jorge Nunes e Manuel Nunes. 
Por fim adormecemos enquanto o som da água do rio ecoava pela casa. 


Na manhã seguinte,  não estávamos tão recuperados como devíamos,  pois a noite foi curta. 
Para nos animar,  a D. Rita preparou-nos um pequeno almoço delicioso,  que tomámos na varanda sobranceira ao Rio.  


De seguida fizemos uma curta viagem de carro até à aldeia de Guadramil. Percorrendo as ruas,  fomos várias vezes abordados por pessoas curiosas que facilmente metiam conversa e partilhavam a sua história de vida. Enquanto apanhavamos água numa fonte contaram-nos que a Ribeira de Guadramil nunca secou e partilharam memórias de juventude a trabalhar em terras de Espanha.  As casas não estão tão cuidadas como as de Rio de Onor,  mas ainda é possível vislumbrar ferrolhos em madeira, alçados de madeira trabalhada, e uma igreja em pedra dedicada a S. Vicente. 


Estava na hora de nos fazermos ao caminho. 



O nosso caminho começou junto à antiga escola primária e entrou, de forma abrupta, por uma encosta de pinus sylvestris, até alcançar uma casa florestal.  Embora o desnível fosse de apenas 50 m, serviu para acelerar a respiração.



Da casa florestal, situada já na linha de cumeada, iniciámos um percurso ligeiramente ascendente (150 m de desnível até à barragem junto às minas de Guadramil).



Porém,  quando lá chegámos, não encontrámos mais que um charco,  que mais fez lembrar a cratera de um meteorito.


Parámos neste local para um almoço volante,  também preparado pela D. Rita. 


Era altura de continuar o passeio,  ziguezaguiando por entre várias linhas de água que desciam do limite da fronteira. O pinheiro silvestre domina o estrato arbóreo, pontilhado por abetos e fetos. Junto às linhas de água,  os fetos conferem um verde fluorescente à paisagem.


Depois de percorridos cerca de 4 kms alcançámos o planalto da Lomba Rasa, com magníficas panorâmicas sobre a Sierra da Culebra. O percurso inflecte para sul,  bordejando um souto e entronca na estrada Municipal 308, que desce, serpenteando até Rio de Onor.


A aldeia estende-se nas margens do rio.
A malha urbana alterna com quintais onde se cultiva uma grande variedade de produtos. A ausência de supermercados,  ou qualquer loja de comércio é o resultado de uma comunidade autosuficiente,  revelando que na entreajuda todos ganham.


Jantámos no restaurante o Trilho, com esplanada junto ao rio.

posta mirandesa com arroz, batata frita, salada


No dia seguinte, iniciámos a primeira etapa cujo destino era a aldeia de Labiados. Após um primeiro troço pela estrada Municipal 308,  virámos à esquerda para um caminho de terra batida, onde havia uma indicação de árvore notável.



O trilho desceu em direcção ao rio, que atravessámos numa ponte de cimento.  No entanto,  na outra margem,  o caminho estava cortado por uma vala com um metro de largura,  que tivemos de contornar, desbravando caminho em lameiros.


Voltámos ao percurso,  mas a progressão não foi fácil,  pois havia muitas plantas.   Por fim, desembocámos num entroncamento, onde seguimos por um caminho corta fogo pela cumeada,  vencendo um desnível de mais de 100 m. Aqui cruzámo-nos com outro casal de ciclistas que se dirigiam para Rio de Onor.  Sentimo-nos um pouco melhor ao saber que não éramos os únicos a desbravar esta terra selvagem. Já perto do cabeço,  um desvio à direita,  levou-nos sob as fragas de Rebal do Cabo de volta ao Rio de Onor,  que atravessámos a pé descalço.


A partir daqui,  uma sucessão de caminhos florestais bem conservados conduziu-nos outravez a um jogo de escondidas com o rio, saltitando entre margens,  onde domina o pinus sylvestris,  sobrevivendo pequenos soutos,  numa estreita faixa junto às margens.


Por fim,  divergimos pela margem esquerda do Rio até alcançar Labiados. Recortada pela ribeira homónima, encontrámos o Puzzle Café, onde parámos para descansar e comer.

 
Demos uma volta pela aldeia,  e deparámo-nos com a capela de Nossa Senhora da Assunção, onde duas simpáticas velhotas decoravam os altares com flores cultivadas nos quintais da aldeia (de propósito para adornar os santos) pois aqui não há floristas.


Já de bicicleta,  orientámos o nosso caminho para a Cabeça Velha,  com 981 m,  o mais alto dos cabeços da alta lombada.  A vista do panorama actualmente só é possível para sul, pois Rio de Onor e a Serra da Culebra ficaram tapadas pelas copas dos pinheiros.


Daqui iniciámos o troço final de regresso a Guadramil,  com boas descidas em terra batida, por entre estevais, onde ainda avistámos um corço.




 Por fim,  o casario de Guadramil apareceu aninhado num vale. O nosso caminho desembocou junto à antiga escola,  no exacto momento em que os sinos tocaram a repique, anunciando as 20h.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Dias 7 e 8 e 9 - Pays de Bigorre

em Toulouse

Assim que chegámos à estação de Lourdes, optámos por ficar no hotel mesmo em frente. Não foi a opção mais barata,  mas depois de passar uma noite no comboio,  só queríamos deixar as mochilas arrumadas e descobrir,  descansados, a região do Pays de Bigorre.
Depois de um pequeno almoço no hotel,  apanhámos um táxi para as grutas de Bétharram.


Chegámos mesmo à hora. Mais um minuto e o autocarro para a entrada da gruta teria partido e já não era possível fazer a visita da parte da manhã.



No interior,  uma sucessão de 5 galerias. Os primeiros metros não nos impressionam: estalactites, estalagmites já vimos em Portugal e não só.


O percurso de 100 metros,  percorrido de barco e o trajecto final em comboio eléctrico dão alguma alegria às muitas crianças que integram o grupo da nossa visita.  Contudo,  o que realmente constituí a mais valia destas grutas é o percurso de cerca de 3 km, em cima do leito de um rio subterrâneo que flui por uma fissura entre 30 a 40 m de altura,  por dois metros de largura.  Aqui facilmente podemos imaginar como será caminhar por entre as placas tectónicas que delimitam os continentes.


No fim da visita regressámos a Lourdes,  e almoçámos no restaurante Le Effe.


De seguida,  fizemos uma caminhada rumo ao cume do Monte Le Béout. Apesar de ter um desnível de cerca de 500 metros,  o percurso descreve uma curva alongada,  passando pela aldeia de Ossen, e, subindo a vertente menos escarpada, dá acesso à antiga estação de teleférico. Daí,  segue pela crista ao ponto mais alto, assinalado com uma cruz.


O panorama permite apreciar a cidade, o seu entorno e todo um conjunto de relevos glaciares ricos em moreias,  que envolve a transição da paisagem de montanha para a planície.


Na descida para a cidade, avistámos vários casais de aves de rapina a sobrevoar as nossas cabeças.


  Para finalizar o dia jantámos num restaurante Tibetano.

entrada: salada de legumes grelhados e fruta; pratos principais: vegetais salteados com carne de borrego; sobremesa: "Sho", doce feito com requeijão, mel e amêndoas torradas; bebida: chá de jasmim

No dia seguinte,  o ponto alto da nossa viagem - o Pic du Midi de Bigorre - ergue-se a mais de 2800 metros.  Mas para lá chegar não precisámos de tenda, crampons ou piolet: uma navette que reservámos na oficina de turismo faz o trajecto entre Lourdes e La Mongie (cerca de 40 km), por 8 euros, ida e volta,  para duas pessoas.


Assim que chegámos a esta estância de ski,  apanhámos um teleférico com mais de um km de extensão, que nos transportou até ao topo do Pic du Midi.


Para além da bela paisagem de montanha (é possível avistar a Brecha de Roland mesmo em dia nublado),  este lugar é também importante por aqui estar instalado um observatório e o instituto de física mundial.


no restaurante Pic du Midi comemos o menu skieur: rolo de carne com massinhas e courgette; folhado de maçã; vinho quente.


A pureza da atmosfera, levou a que, desde o séc XVIII,  vários astrónomos tenham escolhido este local inóspito para fazer as suas observações.  Ficámos a saber que foi precisamente aqui,  durante um eclipse total do sol,  que foi descoberta a coroa solar.
Actualmente,  o instituto continua a realizar pesquisas sobre radiação cósmica e luminescência nocturna.
Aproveitámos ainda para assistir a duas sessões no planetário, situado na primeira cúpula do observatório.
Regressámos a Lourdes e tivemos a sorte de encontrar um óptimo restaurante recomendado pelo Guia Vermelho da Michelin,  o Alexandra.

    foie gras e chutney de figo; pato confitado; profiteroles

No nosso último dia viajámos para a capital de Languedoc, Toulouse,  o sexto maior centro urbano de França que revisitámos após 10 anos. Decidimos ir a uma série de museus que na altura deixámos de visitar por falta de tempo.  Para começar a descobrir as origens da cidade,  visitámos o museu Saint - Raymond, o museu Arqueológico da Província, com uma boa colecção de estátuas romanas encontradas numa vila próxima e vários elementos da arte dos visigodos que aqui estabeleceram a capital do seu reino.

  episódios dos "trabalhos" de Hércules; túmulo;Tetis e um Tritão; ninfa Ino; divindade marinha; colar de ouro do neolítico

A seguir partimos em busca da Tour Pioire Séguy,  incrustada no casario medieval. 


Não conseguimos visitar a torre,  mas no local onde estava uma placa assinalando a sua localização, encontrámos um restaurante com gatos, o Chapristea.  Os gatinhos passeavam serenamente por entre as mesas, sem ligar aos comensais.  Apenas um ou outro de vez em quando se aproximava.


Durante a tarde,  visitámos o Museu de Artes decorativas Paul Dupuy,  que,  para além de uma interessante exposição de relógios tinha patente uma exposição sobre pintura tibetana.


O que mais nos cativou foi um altar com oferendas, bem como a complexidade e as várias correntes que integram o budismo.


De seguida fizemos uma caminhada rápida até ao Museu de História Natural e Jardim Botânico Henri-Gaussen. Animais embalsamados,  fósseis e audiovisuais explicam a história do planeta Terra.




Por fim descansámos no Jardim des Plantes, paralelo ao jardim botânico,  onde as plantas carnívoras caçavam insectos.  



Deambulámos pela cidade em direcção à Praça do Capitolio, onde jantámos. 





sábado, 15 de julho de 2017

Diário de Viagem: Île-de-France, dia 6 - Château d'Écouen

Levantámo-nos um pouco mais tarde e optámos por visitar um castelo mais próximo da cidade, o Château de Écouen, que alberga o Museu Nacional da Renascença.
Apanhámos o comboio na Gare Paris Norte.  Pela primeira vez o comboio não tinha dois andares.
Saímos na estação de Écouen,  com fotos de objectos em exposição no Museu. Depois de um café no bar da gare, embrenhámo-nos na floresta de Écouen, com tílias,  faias e outras árvores mais antigas que não conseguimos identificar.  


Por fim desembocámos numa avenida de tílias,  mesmo em frente ao antigo jardim francês do Château,  do qual apenas restam o relvado e os terraços onde se encontravam os buxos desenhados.


O desaparecimento dos jardins barrocos deve-se à pilhagem e abandono dos palácios dos aristocratas aquando da revolução francesa. A quase totalidade dos que subsistem,  foi replantado no séc XIX,  sob o ideal romântico.


Parámos num banquinho para almoçar comida que tínhamos comprado previamente no supermercado. De seguida,  fomos para o Museu,  comprámos uma visita guiada que começava às 15h30. Entretanto visitámos o rés-do-chão. Expostos em várias salas, diversos objectos exibiam detalhes onde se manifestou a revolução decorativa da Renascença iniciada em França,  como vimos atrás, por François I. Madeira trabalhada (boiseries), relógios,  tapeçarias, cerâmica,  esculturas, numa primeira fase com predominância de elementos góticos salteados por tímidas alusões renascentistas e, posteriormente, dominados por todo o tipo de reminiscências da antiguidade clássica. 



 Não obstante, existem muitas outras preciosidades, com elementos coevos, como por exemplo,  um relógio em forma de Nau.



 A complementar na perfeição o acervo do museu,  as pinturas das chaminés e os frisos do tecto e das janelas,  originais do séc XVI, remetem-nos para o tempo em que Henrique IV e Catarina de Medici aqui moravam.
Por fim,  a visita guiada tirou-nos a dúvida sobre Anne Montemorency, primeiro Duque de Montemorency, que erradamente pensávamos ser uma mulher,  devido ao nome Anne. Depois regressámos à estação de comboio, por um caminho mais longo,  mas que contornou toda a floresta de Écouen.



Quando terminámos,  era hora de ir para Paris e apanhar o comboio para Lourdes,  no interior do antigo Pays de Bigorre.


instalados na couchette



sábado, 24 de junho de 2017

Diário de Viagem: Île-de-France, dia 5 - Château de Fontainebleu




Hoje de manhã os raios de sol mais uma vez entraram pela janela, o que nos deu boa disposição logo ao acordar. Temos tido muita sorte com o tempo, porque têm estado temperaturas altas e sol quase todos os dias. Apenas à noite arrefece um pouco. 
Para hoje escolhemos o ponto de interesse mais conhecido da nossa viagem: Fontainebleau, uma floresta de faias,  carvalhos e pinheiros da Normandia, onde vivem javalis,  veados e outros animais que desde a idade média atraíram os reis e nobres franceses.   Aqui foi construído um castelo na Idade Média,  que no reinado de François I, deu lugar ao primeiro edifício renascentista francês. 

Château de Fontainebleau


Para lá chegar apanhámos o comboio RER até à estação de Fontainebleau-Avon. Da estação seguimos no autocarro número 1 que nos deixou junto à entrada do jardim de Diana. 
Depois de comprarmos os bilhetes e levantarmos o audioguia,  iniciámos a visita pelo Museu de Napoleão I, onde é possível ver as poucas obras de arte que o conquistador da Europa guardou para si.

  
Mais interessante é a colecção do minúsculo museu chinês, que mais não é do que um repositório das ofertas trazidas pelos Reis de Sião, actual Tailândia, aquando da visita a França: incensários, móveis profusamente esculpidos com cenas da natureza, um altar e liteiras decoradas com motivos exóticos. 


Almoçámos rapidamente no Pátio do Adeus ou do Cavalo Branco,  para, às 14h30, iniciarmos a visita guiada aos Petit Apartments de Napoleão I.



Trata-se dos aposentos do conquistador da Europa e das suas duas esposas, primeiro Maria Cristina,  rejeitada por não conceber um herdeiro a Napoleão e depois Josefina.
A austeridade domina estes aposentos, em estilo império, que contrastam com a opulência e riqueza decorativa dos Grands Appartements de Napoleão III.


Aqui ficámos deslumbrados com a galeria de François I,  com o exuberante salão de baile e pela sucessão de divisões privadas,  decoradas com frescos e estuque pelos mestres italianos contratados por François I durante as suas campanhas em Itália, que deram origem à primeira escola de Fontainebleau e pelos mestres parisienses do séc XVIII,  sob a influência da Flandres, que deram origem à segunda escola de Fontainebleau.

salão de baile





No rés do chão visitámos a Galeria dos Veados,  com representações dos vários palácios construídos pela burguesia à volta da cidade de Paris para servir de apoio à caça, o passatempo mais popular da nobreza e da burguesia durante os tempos de paz.


Depois de terminarmos a visita,  espreitámos o Lago das Carpas,  e lanchámos junto ao Grand Canal. Entretanto,  um cisne,  patos e galeirões aproximaram-se. Nós não resistimos e partilhámos com eles o nosso pão de nozes.



Assim que o Sol se escondeu atrás das árvores,  sentimos imediatamente um frio seco, que nos lembrou que o Mediterrâneo está a centenas de kms.



Partimos ao longo do Grand Canal com mais de um km de extensão e saímos do Parque em direcção à estação de comboio,  para regressar a Paris.  
Para nos despedirmos de Paris,  voltámos mais uma vez à Boulevard de Montparnasse onde conhecemos mais um Terrace Café,  o Dôme.
Os pratos escolhidos foram salmão marinado com uma salada de grelos e agriões e dourada com risotto.